segunda-feira, 17 de julho de 2017

FAROL

Apesar de, por ambição,
quererem nos calar, nos fazer duvidar
Apesar do homem imoral, da vida desigual
De trocarem o inestimável por um carnaval

Apesar de tomarem como bem o que é mal
De amontoarem cabeças de justos
De nos agourarem os bons frutos
Vendendo ao povo sobras de um tempo mau

Minha luz será um farol
Revelando que os fantasmas
São um monte de nada
Para provar que a escuridão
É ilusão
É fugaz
E logo passa

quinta-feira, 19 de março de 2015

Outro Filho Pródigo

            Andando de pés descalços no calor das ruas de Goiânia, uma figura raquítica sorria para a noite. Enquanto caminhava, via-se claramente a repulsa dos "cidadãos de bem" ao seu estado. Mais que isso: via-se o medo de que ele se aproximasse. Era jovem (apesar de aparentar ter o dobro da idade), olhos claros, cabelos agradavelmente cacheados, nariz borrado de foligem. As mãos estavam escurecidas, sujas, calejadas pela vida nas ruas. Roupas maiores que o corpo, pés feridos, unhas irregulares, pretas. Apesar de maltratado, seu sorriso era irrefutável. Sua tristeza também.
            Enquanto subia a rua dez, pedia aos que encontrava algum trocado para completar um lanche. Não retribuiu um “não” sequer com dissabor: pagou a todos eles com um bom sorriso e um “muito obrigado”. Parou então diante de um casal, que também comia – como os outros a quem abordou – em um dos pit-dogs entre a praça Cívica e a Universitária:
_ Boa noite. Desculpa incomodar vocês. Eu sei que querem namorar um pouco, mas vocês teriam algum dinheiro para completar um sanduíche? Qualquer quantia. Falta só um pouquinho.
_ Claro que sim. E você não incomoda não – disse o rapaz -. Isso é tudo o que tenho agora. É o troco do sanduíche.
_ Bom demais. Dá pra comprar até um melhor do que eu estava planejando. – e foi ao balcão, pedir o seu.
            Fernando desconfiou, por um momento, que o jovem usaria o dinheiro para comprar drogas. Não conseguiu deixar de notar as queimaduras típicas na ponta dos dedos, mas sentia que precisava acreditar no garoto agora. Sua esposa e ele ficaram aliviados de não terem cometido o mesmo equívoco dos outros.
            Os três aguardavam seus sanduíches chegarem, enquanto conversavam:
_ Sou morador de rua desde os treze. Eu que decidi fazer isso, porque não queria dar trabalho pra minha família. Fugi de casa pra não ficar dando desgosto para meus parentes em casa.
_ Por quê?
_ Porque comecei a mexer com droga. Quando eu percebi que estava viciado demais saí de casa. Antes que a droga me fizesse cometer alguma besteira contra minha família, que começasse a roubar e vender as coisas de dentro de casa pra fumar.
            A maioria dos usuários de drogas começa com lícitas ou ilícitas que podemos considerar como “leves”: cigarro, bebida, maconha. Depois, gradativamente, se arrisca em outros tipos de entorpecentes mais nocivos. Qual e o quão nocivo depende muito do país em questão. No Brasil, o campeão disparado de vendas e destruidor de lares é o crack. Trata-se dos detritos resultantes da fabricação de cocaína. Uma pedra varia em tamanho e efeito, dependendo da forma como se misturam os elementos do refino ao restante. Formadas as pedras, são empacotadas e vendidas. Seu efeito é rápido: diz-se que qualquer dose de consumo dela causa dependência química instantânea. Por isso, o crack pode impelir o usuário a fazer o que foi descrito pelo jovem de rua.
_ Você prefere a rua ou sua casa?
_ Minha casa... – e o olhar ficou distante. – Eu tenho casa, na verdade. Sou casado agora, e minha esposa sabe que eu uso. Quando eu desapareço, ela sabe que é por causa disso. Tadinha... fica aflita por minha causa.
_ Por que você não para de vez?
_Já tentei. Fui internado em uma instituição dessas, de evangélicos. Foi muito bom: conheci Jesus lá dentro, quis muito me libertar, mas essa desgraça dessa droga não me deixa. O povo acha que é fácil se livrar delas, que você para na hora que bem entende. Só que você pensa: “não estou com vontade de parar”, e é aí que você vira escravo: por causa de sua vontade. Você sempre vai ter vontade de usar. A decisão vai ser se você prefere o “barato” ou a sua saúde, sua família.
Mas assim, moço: nunca fiz mal a seu ninguém. Eu consigo uns trabalhos aí, cato latinha, vigio carro, e uso droga com esse dinheiro. Os “polícia” me conhece, sabem que não faço nada de errado não. Tem até o Sgto. Tavares, que toda vez que me pega usando me dá um sermão. O cara é gente boa. Teve uma vez que ele até me prendeu pra não me deixar usar.
_Ele te fichou por alguma coisa?
_Que nada, o pessoal do Batalhão me conhece também. Só prenderam mesmo. Achei ruim na hora, mas não falei nada. Eles queriam me ajudar, né? No máximo, eles me tomam a droga e levam pra longe. Por causa disso até fiz amizade com eles. Nunca tomei pancada de PM nenhum: esses que apanham deles aí são os que fazem coisa errada.
_ Que bom que você tem pessoas que te querem tão bem.
            Fernando que o diga. Ele é evangélico, e teve um discípulo que deu muito trabalho. Depois que saiu da célula, se envolveu com traficantes, passou a usar drogas e cometer pequenos delitos. A família dele – já antes ausentes, frios, omissos – o escorraçou de casa, e isso o forçou a se engendrar no crime. Desnorteado, emocionalmente instável, cometeu alguns exageros. Poucos meses antes daquele diálogo descobriu que o seu discípulo havia sido executado por causa de uma dívida de drogas.
_ Valorize as pessoas que te amam. Parece clichê dizer isso, mas elas não vão estar aqui pra sempre. Nem elas e nem você tem certeza de como vai ser amanhã. Não estou falando de Deus, juízo, nada disso, mas das oportunidades que você perde de estar ao lado das pessoas que se importam com você. Eu perdi recentemente uma pessoa que procurei tirar desse mesmo caminho que você está – não era meu parente, mas eu o amava. É doloroso, porque por mais que você ame essa pessoa, ela fica perdida num labirinto, sozinha, sem conseguir enxergar a dimensão do que está acontecendo consigo. Você fica de mãos atadas, e é obrigado a ver a pessoa se destruindo.
_ Nunca pensei por esse lado.
_ Imagino. – e com uma pausa pequena, completou – Sua esposa pode se sentir assim. Converse com ela um pouco, quando estiver sóbrio. Converse com sua mãe também. Elas com certeza te amam. Mais que o Sgto. Tavares, com certeza. – e ele riu. E lacrimejou.
_ Pois é, cara... Preciso parar com essa merda.
_ Talvez você tenha tentado parar sozinho, e por isso não conseguiu. Mas é só você ver as pessoas que foram postas no seu caminho, que vai perceber que é uma bobeira tentar só.  Você não está sozinho. Se fortaleça no amor dessas pessoas por você, que rápido a gente se cruza por aí, com você de vida nova. Eu, particularmente, ficaria muito feliz com isso.
            Conversaram mais sobre isso, e sobre tudo. Comeram juntos, sem qualquer diferença entre eles. Depois da última mordida, se separaram. Seguiram suas vidas.
            Ano seguinte Fernando ajudava sua tia a atar ao teto do carro alguns equipamentos de viagem. Em meio ao trânsito caótico da avenida oitenta e três, ouviu um diálogo alegre entre alguém do lado de cá e outro do lado oposto da rua:
_ Olha só quem está aqui! Essa bicicleta é sua?!
_ É sim! Comprei esses dias!
            Ele reconheceu remotamente a voz alegre do outro lado.
_ Voltei pra escola, e parei de usar coisa errada, seu Conrado.

Desta vez, parecia contagiante, vibrante. Quando se virou para ver quem era, encontrou um par de olhos claros, vívidos, tentando reconhecê-lo (Fernando sorria e acenava). O rosto estava cheio, o cabelo bem tratado. Parecia um parente distante voltando de viagem, contando suas novas. Quando o reconheceu, mais ainda sorriu, imensamente agradecido. E um aceno de “muito obrigado”, prendendo algumas poucas lágrimas. Como um suspiro de alívio.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Uma Caixinha

Ela tinha os olhos assustados: alguma coisa passou pelo seu quarto e varreu tudo do lugar. Poderia até não parecer grande coisa (afinal, o quarto precisava mesmo de ordem, e ela concordava), mas o medo de ter sido descoberta era enorme. Será que mexeram em sua gaveta também? Provavelmente: quando saíra, pendia dela um terço que estava cuidadosamente colocado na caixa de joias em cima do criado-mudo.
_ Já falei pra você, Isadora! Meu quarto não é lugar pra você entrar!
_ Deus do céu, amiga, como você é ingrata! Eu te faço um favor e você vem com sete pedras na mão!
_ Não me venha com essa! Você sabe que eu não gosto que mexam nas minhas coisas!
Era a vez de Lúcia arrumar a casa, mas ela foi acometida por um turbilhão de acontecimentos: seu irmão se casou no final de semana – o dia que elas têm pra arrumar direito – numa chácara a cento e quarenta e cinco quilômetros de sua residência. O casamento foi avisado no meio da semana. Felipe era o ovelha-negra da família: seu Woodstock spirit implacável, apesar de criticado pela família, era tolerado porque ele nunca foi capaz de prejudica-los por causa de um vício qualquer. Como esperado de alguém de sua estirpe, uma loucura como essa, saída do meio de uma comunidade esotérica, seria não menos que pertinente: conheceu Lilás (sim, este é o nome dela) em uma comunidade hippie, se apaixonou e se casou por lá. Tudo em três semanas. Convidou a família na sexta para seu casamento, a ser realizado no sábado e domingo (o ritual “escolhido” pelos noivos durava dois dias).
_ Onde você guardou? – dizia Lucia, nervosa.
_ Guardei o quê?
_ Minha caixinha.
_ Aquela que você não quer que ninguém abra? Não vi...
_ Mentira! Você sabe sim, eu sei quando você está mentindo! – enquanto Isadora dava de ombros.
_ Só arrumei o que estava no chão e nas gavetas de roupa. A caixinha eu achei que você tivesse levado com você pra eu não mexer... – e tinha um fundo de razão nessa frase. Por mais que as duas morassem juntas, aquilo era muito pessoal para ela, um segredo que ela não queria que ninguém soubesse. Nem mesmo sua melhor amiga. Por isso, sempre que saía de casa levava a caixinha, mas dessa vez ela deixou em casa. A única vez que deixou em casa.
_ Isadora, você tem certeza que não viu essa caixinha?
_ Amiga, já te disse: você anda com ela pra cima e pra baixo. Já até esqueci que você tinha esse trem guardado. Por que me pergunta ainda?
            Mas isso não era o suficiente. Elas discutiram por toda noite, reviraram o quarto dela, da amiga, a sala, cozinha, a geladeira, o armário do banheiro, tudo. Nada da caixinha. Alguém sabia o que aquilo significava. Queria roubar seu mais precioso tesouro. Mas por quê? Não era nada demais! Não ofendia a ninguém, e nem tinha tanto valor assim... Ela prometeu que guardaria até que ele voltasse! E guardou! E justo agora, tão perto da sua volta, embora não soubesse a data, ela perdeu! Sumiu!
_ Isadora, pelo amor de Deus, me diz que você está só brincando e que sabe onde está essa caixinha. – Seus olhos agora marejavam.
_ Calma, amiga. A gente vai encontrar...
            Isadora não entendia o porquê de tanto desespero. O tempo passou lenta e carpidosamente. Eram quase cinco da manhã e elas não tinham achado. E sua amiga estava desnorteada. “Não pode ser tão sério assim” – pensava – “não havia nada demais dentro da caixa”. Mas enfim, ela sabia que era para o bem de sua amiga.
_ E agora, amiga? Aquilo não era meu... – disse Lúcia, dessa vez aos prantos – eu prometi que guardaria pra uma pessoa... e está perto do dia de ele vir buscar...
            Depois de tanto sofrimento, ela não suportou: se sentia a maior de todas as traidoras. Acreditando que estava fazendo algo bom pela amiga, atendeu ao pedido da sua família, e revirou suas coisas atrás daquela caixa. Assim que encontrou, entregou à sua mãe.
_ Amiga, me perdoa...
_ Não precisa você também começar a chorar, “manteiga”. De chorona basta eu.
_ Amiga, me perdoa pelo que eu fiz...
_ Não me diga que você jogou fora!??
_ Não... sua mãe sabia que você ia ficar fora um tempão e pediu pra eu pegar essa caixa pra ela...
_ O QUÊ?
            Ela não acreditava no que tinha acabado de ouvir! Sua mãe? Ela tirou sua caixinha? Que relação ela tinha com aquilo tudo? Por quê? Que sentido faz? Sem demora pulou dentro do carro, e correu até sua mãe. Eram seis e meia da manhã, em uma hora e meia deveria estar no trabalho, mas podia esperar. Quando chegou lá, todos se reuniam à mesa do café da manhã.
_ Mãe, devolve agora! – assim, antes do “bom dia”, do “como vão”...
_ Filha, por que você está tão abatida? Que foi que aconteceu?
_ Para de enrolar, mãe! Eu sei que a Isadora pegou a caixinha no meu quarto e te entregou! Cadê ela?
_ Por que essa caixa é tão importante pra você, filha? Não tem nad...
_ Você sabe por que, mãe! Você leu! Só você!
_ Minha filha, você tem que superar isso. Ele não está mais vivo, no fundo você sabe disso...
            Aquela conversa elas já tiveram. Inúmeras vezes, de forma exaustiva. Quando tinha onze para doze anos de idade, ela conheceu o amigo mais equilibrado de Felipe, o Gustavo. Tão instantâneo quanto seu encontro, foi seu amor. Ele tinha medo de apanhar de Felipe (que era uns vinte quilos mais pesado, e ao menos quinze centímetros mais alto naquela época). Encontravam-se às escondidas em uma praça perto de sua casa. Foi expulso por Dona Valdete uma dúzia de vezes da frente de sua casa, até que um dia entrou para pedir a menina em namoro. Os pais viam uma inocência sem igual no menino, o que os levou a permitir. Era bem capaz de ser apenas um amor de colegial, e passar depois de alguns meses. Sua amizade com Felipe, inclusive, tornava o garoto menos encrenqueiro, porque ele apascentava as brigas, colocava um pouco de juízo na cabeça do amigo. Isso contou pontos pro rapaz...
            O namoro durou até seus dezessete anos (ambos tinham a mesma idade), quando Gustavo prometeu que se formaria e se casaria com ela. Ele a entregou uma caixinha – a dita cuja –, se despediu e foi embora. Dois anos depois, se correspondendo sempre, visitando-a sempre que podia, ele conseguiu estagiar numa pesquisa de campo do seu curso (biologia), para catalogar espécies de insetos da Mata Atlântica. A expedição se tornou um pesadelo por ser período de chuva, e uma delas em particular varreu o acampamento deles, e deixou um morto, quatro pessoas em estado grave e dois desaparecidos. Eles nunca foram encontrados. Felipe era um deles.
_ Ninguém sabe, mãe!
_ Minha filha... chega... – disse dona Valdete, chorando – já se passaram quatro anos...
_ Eu sei que ele está vivo, mãe! Eu decidi esperar por ele, e é o que vou fazer! Eu não consigo amar outra pessoa! – agora ela que chorava. Copiosamente.
_ Você ainda o ama, filha?
_ Nunca deixei de amar, mãe! Você sabe disso!
_ Chega dessa palhaçada.  – falou Felipe, deixando sua amada esposa, a família e a mesa do café da manhã, e indo até o quarto.
_ Felipe! – gritou o pai.
_ A guria não quer outro cara. Pronto. Para de enrolar ela! – falou, atirando a caixinha para suas mãos. Ela, que nunca foi boa de aparar as coisas que jogavam, deixou-a cair no chão. Tinha dentro dela uma caixinha preta e um bilhete.
Enquanto se abaixava pra pegar, algo inesperado acontecia. Seu pai se levantou. Seu irmão, exclamava um palavrão. Sua mãe paralisou. Ao se virar, Lúcia se deparou com um homem de barba por fazer, olhos castanhos, cabelo curto. Ela estremeceu completamente ao vê-lo. Seus olhos também por explodir em lágrimas por vê-la de novo. Era Gustavo.
_ Eu fiz uma promessa a uma mocinha desse tamanho desta casa. Alguém a viu? – falou Gustavo. Recebeu um tapa no rosto. Terá sido uma brincadeira de mau gosto?
_ Onde você esteve esse tempo todo? – retrucou a moça, furiosa!
Antes que pudesse responder, recebeu um beijo.
            Dois meses depois se casaram.

Quando a enxurrada o levou, Gustavo bateu com a cabeça. Foi encontrado a quilômetros do local do acampamento por camponeses, desidratado, convulsionando e sem qualquer coisa que o identificasse. Levaram-no ao hospital dizendo ser um parente que inventaram. Ele recebeu ali os devidos cuidados, passou três semanas se recuperando. Fora a amnésia, todo o resto estava bem. Ele se lembrava de duas coisas: seu primeiro nome, e o da sua noiva. Demorou quatro anos para que toda a história finalmente voltasse à tona. Ele entregou para sua noiva um par de alianças de ouro, e prometeu que voltaria para sua cidade para que se casassem. Dentro da caixinha, seus votos: “Guardei pra você todo meu amor. Se guardar o seu também, prometo que volto pra você, de onde quer que esteja, pra sempre”...

terça-feira, 24 de julho de 2012

Pensando "se"...

E se eu não for interessante como parecia?
Se não gostar das mesmas coisas que você?
Se não fizer o que achava que faria?
Ainda vai gostar de mim?

E se o caminho for um pouco mais escuro?
Se  os dois tiverem medo do futuro?
Se a vida for injusta com a gente?
Ainda vai lutar por mim?

E se eu me importasse com a fome do mundo?
Se o tempo voltasse um minuto?
Se fôssemos eternos como o tempo?
Ainda ia ter tempo pra mim?

E se disser: "Verdade, te amo"?
E se nunca chegar a dizer?
Se o que quero dizer me fugir?
Ainda vai gostar de mim?

E pensar que uma vida inteira depende de um "se"...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Reviramundo

            Sobraram alguns móveis na sala, implorando para que o dono não os esquecesse. Em vão: teriam apenas que aguardar o sol dar seus primeiros sinais de espreguiçar para sumirem dali para um novo lar, novos donos, novos livros. Júlio se cansara de tentar justificar sua vida. Resolveu mudar de cidade. Encontrou um bom apartamento no centro da cidade grande, um novo emprego bastante promissor e começou seu novo curso de idiomas. Todos os olhares na cidade pareciam estressados pela paisagem cinza que os contaminava. Os edifícios se impondo orgulhosamente, subjugando os pobres humanos sob suas sombras, os transportes públicos correndo de um lado para o outro, mal humorados, não conseguiam permanecer vazios por menos de cinco segundos: assim que uma leva era deixada em um ponto, outra entrava a girar-lhes as catracas. Tudo aquilo parecia uma poesia fascinante para ele, que se aventurava pela primeira vez fora de seu mundinho.
            Depois de seis anos namorando com Simone, Júlio, de vinte e dois anos de idade, percebeu duas coisas no relacionamento que o acertaram em cheio: primeiro, que sua namorada era uma mosca morta. Não que isso propriamente dito seja um problema, mas porque não havia possibilidade alguma de ele realizar seus sonhos tendo uma esposa assim ao seu lado. Simone não tinha nenhuma expectativa para o futuro além de morar no subúrbio e trabalhar como caixa de um supermercado do bairro. Reclamava do salário, da família, da comida, do final do filme, e isso o levou ao fato número dois: o amor entre eles acabou de uma vez por todas. Pensou algumas vezes antes disso em propor casamento a Simone, porém voltou atrás várias vezes nessa decisão. Ele sempre ouvia de sua mãe que não daria certo, que ela é muito bonita, simpática, mas que não seria uma boa esposa. Isso foi o motivo principal de ele não ter levado o plano do casamento em frente: mesmo a contragosto, concordava com ela.
          Simone não gosta de mudanças, e se incomoda quando alguém a propõe qualquer que seja. Quando seu patrão mudou o caixa para um mais moderno, ela quase foi demitida porque se recusava aprender a lidar com o leitor de código de barras. Segundo a própria, "levou um mês para se acostumar com a novidade". Quando mudou de casa, dizia a sogra de Júlio, ela chorava e esperneava para entrar no carro. Não queria deixar os adesivos de estrelinhas do seu quarto, e achava que do topo dos seus quatorze anos, seria justificável fazer esse escândalo. Ficou bicuda, trancada em seu novo e odiado quarto, sem falar com os seus pais por algumas boas semanas. Se Júlio tivesse que saltar rumo ao desconhecido, como seu espírito freqüentemente o exigia, Simone não o poderia acompanhar, e se o seguisse, teria que lidar com o seu mau humor contínuo. Pensando claramente nisso agora, ele sentia um certo alívio de ter percebido isso em tempo de recomeçar.
            O celular tocava de novo: era ela outra vez. Aquilo o fazia pensar em quanto tempo possuía o mesmo número. Quando o celular se cansou de tocar, ele retirou o chip e jogou pela janela do sexto andar. Sabia de cor os telefones mais importantes: o de casa e os de seus melhores amigos. Atravessou a rua, comprou outro chip, e ligou por ordem de importância para as pessoas que precisavam saber seu novo número.
           Passou três semanas inteiras desembrulhando objetos, organizando nas prateleiras, mudando os móveis de lugar. Acordava de madrugada para chegar ao trabalho pelo menos trinta minutos mais cedo, e chegava às sete em casa, quando começava a maratona até quase dez da noite. Cansado, preparava um lanche rápido, tomava um banho, escovava os dentes e se afundava em seu colchão. Essa rotina o escravizou por um tempo, mas logo fez amizades dentro do escritório, programou futebol com os rapazes, cinema com as garotas, e sua vida começou a andar em uma nova rotina, por pelo menos dois meses.
           A novidade dessa vida de sucessos que o preenchia não era tão interessante quando ele estava sozinho em seu apartamento. Numa noite de terça-feira, quando todos queriam somente dormir para estarem inteiros no dia seguinte, e não teve futebol, cinema, balada, nada, Júlio resolveu assistir um DVD na TV recém comprada. O filme era romântico, pra ser mais exato o primeiro filme que ele assistiu no cinema com Simone. Enquanto o filme desenvolvia sua trama, ele se lembrava de como ela reclamava da cor do vestido da atriz, dos comentários sobre a trama do filme, e de como nada do que ela dizia parecia ser romântico. Até que o final do filme trouxe a sua memória as últimas palavras de Simone sobre ele:
_ É incrível como o amor cura os defeitos...
_ E defeito por acaso é doença? - disse ele, ainda sob o clima de humor ácido que permeou por todo o filme.
_ Não foi isso que eu quis dizer. Em dois meses eu fiz com você coisas que nunca-de-jeito-nenhum faria em minha vida.
_ Por exemplo?
_ Comida japonesa. Eu nunca tinha comido. E nem queria saber. Pra mim era nojento comer coisa crua, mas você conseguiu me fazer provar. E gostei, tanto que vez ou outra a gente volta lá naquele sushi bar da sua rua.
_ Grande evolução.
_ Pára com isso, seu bobo. Outra que mudou: minhas roupas... - Júlio ria com a notícia. - Sério: quando minha mãe soube que eu estava namorando, jogou todas as minhas roupas fora, e me convocou às compras. Você nem notou, né?
_ Claro que eu notei. Tinha um macacão que você vestia pelo menos uma vez na semana (então foi assim que ele sumiu?). Ele tinha um rasgado perto do braço...
_ Tá bom, já entendi que você é observador.
_ Ainda bem que ele sumiu. - levou um soquinho no ombro. - Gosto muito de você assim, sabia?
_ E essa é a motivação que eu tenho para mudar. De repente nem é tão ruim assim.
_ Talvez esse seu desconforto com mudanças seja insegurança.
_ Coisa que com você não existe, porque você me deixa totalmente segura de tudo. Acho que ser amada por você meio que me curou dessa insegurança.
_ Será que não é cedo demais pra chamar isso de amor?
_ Talvez... Mas isso não exclui o bem que você me faz.
      No filme, a mãe entrega para sua filha a última carta que seu falecido marido deixou. Ele tinha descoberto que estava com um tumor no cérebro, e resolveu ajudar sua esposa a superar a vida sem ele, escrevendo cartas que chegavam de maneiras inusitadas até ela. No fim de cada carta, uma declaração: "ps.: eu te amo". 
      É verdade que ele cansou de se justificar, mas definitivamente não conseguiu parar de pensar em Simone a noite inteira, e em como ela se entregava às aventuras que eles faziam no começo do namoro. Ele não era culpado de nada, afinal! Ninguém entende por completo das coisas do coração, então por que deveria se sentir assim? "Cada um é responsável por si"- justificava-se, mas o coração retrucava, teimoso: "Ela iria onde eu fosse, por isso se ela se acomodou foi porque eu me acomodei." 
      Não conseguia mais evitar a dor nostálgica que a solidão daquele apartamento incidia sobre ele: o amor não morreu como pensava. Apenas se acomodou. Esperava que alguém tirasse-lhe a poeira e voltasse a recitar seus versos. O amor enfim só tem vida quando alguém o usa. Como um livro na estante.
      Talvez Simone só precisasse de alguém que a impulsionasse. Lembrava agora do quanto seus olhos brilhavam, mesmo nervosa, quando ele a convidava a fazer algo totalmente diferente. Via agora claramente, mesmo que parecendo tarde, que os defeitos não eram tão gritantes assim, e que poderiam ser felizes juntos, preenchendo os defeitos um do outro.
_ Mãe...
_ Quem é?... - respondeu uma voz sonolenta.
_ Sou eu, mãe.
_ Que foi, Júlio? Aconteceu alguma coisa?
_ Não é nada demais, mãe. Só preciso conversar com você.
_ Espera um pouco, que eu vou descer lá pra sala.
Ela desceu com cuidado o lance de escadas, pois sua idade não era tão avançada assim mas somado à escuridão poderia ser perigoso ter pressa.
_ Pronto. Pode falar, meu filho.
_ Mãe, eu não consigo esquecer a Simone.
_ Quê?
_ É isso, mãe. Não consigo. Passei dois meses tentando, mas...
_ Você me ligou pra dizer que não se esquece da Simone?
_ Desculpa, mãe, mas eu preciso de um conselho. Eu sei que da última vez que conversamos a senhora me disse que não daria certo se me casasse com ela, porque ela vive impondo limites pra mudanças...
_ Sim...
_ Mas eu não consigo esquecer ela, mãe.
_ Entendi. - e a mãe deu um longo suspiro. - Você quer voltar com ela.
_ Não sei... Talvez seja só mais uma noite daquelas...
_ Filho, sua mãe não pode escolher com quem você vai se casar. - Aquela resposta era mais que o suficiente: a decisão era única e exclusivamente dele. Ligaria o começo do dia para Simone.
_ Então você apoiaria se eu me decidisse por pedir a Simone em casamento?
_ Aquele dia eu fiquei em choque, filho. Fui pega de surpresa. Não queria perder meu bebê. Achei que estava te protegendo de uma vida de brigas sem fim, como fomos seu pai e eu. Quando você falou em se mudar para Florianópolis, eu percebi do que realmente tinha medo: perder você. Mas um dia você teria que viver por si...
_ Mas você não vai me perder, mãe. Eu sou seu filho.
_ Desculpa, filho. Agora não podemos voltar atrás. O que está feito, está feito. Me perdoa por não ter percebido antes.
_ Não precisa se desculpar, mãe. Eu te entendo. Promete que não vai mais se martirizar por isso.
_ Prometo... - disse ela, com voz trêmula.
_ Então está decidido: amanhã vou ligar para ela. Se ainda houver alguma possibilidade de nos reconciliarmos, volto para oficializar o pedido.
_ Ela não está aqui, filho.
_ Quê?
_ Ela e os pais se mudaram para a França. Não deixaram contato nenhum. Foi há pouco mais de um mês, pouco depois de você partir.
         Então era isso: uma boa oportunidade de ser feliz tinha oficialmente se jogado pela janela. Antes de desligar o telefone, fez a mãe repetir o juramento. Chorou como um garoto pelo resto da noite, e de outras seguintes, por algumas semanas. Enfim, todos somos vítimas do medo de mudar, direta ou indiretamente. Principalmente porque temos medo de nos arrependermos das mudanças que vierem. Seu medo era que alguém em sua vida fosse como uma âncora, impedindo-o de conhecer águas mais profundas. Achou que fosse sua ex-namorada, e depois, por um momento, quis colocar a culpa em sua mãe. Mas sabia que, inegavelmente, o único responsável pelo que houve era ele próprio e o seu medo: das mudanças que o casamento traria para sua vida."O futuro é uma caixa de pandora que somos obrigados a abrir", pensava ele. Fingia não se arrepender, e agora mais do que nunca, via que era impossível não inventar desculpas. Repetia para si mesmo seus motivos: agora era profissionalmente bem sucedido, cheio de novos amigos, em uma cidade excelente e estava focado em seu futuro. Desconsolado. E agora sozinho.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Incrível Máquina de Caçar E.T's

_ Menino do céu! O que você está fazendo com a caixa de ferramentas do seu pai?
_ Espera só um pouquinho, mãe. Eu já vou guardar.
_ Guarda isso agora!
_ Tá bom, mãe... - falou o menino, escondendo um alicate e uma chave de fenda junto à engenhoca.
          Francine não sabia mais o que fazer: seu filho simplesmente não escolhia brincadeiras como as de outros meninos de sua idade, como futebol, video game. Vivia no mundo da lua, onde ajuntava todos os seres fantásticos de que ouvia falar. Certa feita, ao entrar em seu quarto, a empregada foi banhada pela "poção caça-fantasmas" que ele fez. Ela ia justamente exigir uma explicação dele sobre o que quer que fosse que ele tinha batido no liquidificador, cujo fedor não saía do aparelho. Na lista, "descoberta pelo irmão mais velho dentro de uma garrafa enterrada por um pirata", estavam itens como: olhos de sapo-boi, pernas de aranha, ovo cru, água de chuva, e uma porção de "ervas místicas". Francine arrancou um galho de goiabeira no quintal para aplicar-lhe uma bela surra, mas antes disso tinha a clássica conversa:
_ Por que você fez isso com a Marlete, Marco Túlio?
_ Eu avisei pra ela não entrar no quarto, mãe.
_ Não foi isso que eu te perguntei.
_ Eu só queria prender um fantasma na garrafa de nêutrons que eu fiz. Eu avisei pra ela que tinha uma poção em cima da porta, não era pra ela entrar.
_ Quem te disse que essa poção serve para prender fantasmas? - Ele atravessou o quarto, pegou o "pergaminho do pirata" e mostrou para sua mãe. Interessante como a letra do pirata parece a do Rafael... Deus do céu, como se não bastasse ter um filho que acredita em tudo que contam pra ele, agora tem um outro, metido a contador de histórias. Pelo menos agora ela já sabe em quem vai usar a vara de goiabeira.
_ Marco Túlio, escuta o que a mamãe vai falar: não existem fantasmas.
_ Mas o Marcelo viu um no quarto dele...
_ E quanto a você? Já viu algum?
_ Não - respondeu o garoto, com uma visível frustração.
_ Você fez isso porque está com medo de fantasmas? - "Se quiser pode dormir com a mamãe e o papai", pensou ela.
_ Não. Eu só quero ver um de verdade. - respondeu ele. A frase foi vista com certo mau agouro pela mãe.
            Desta vez o projeto do garoto era mais audacioso. Inspirado no filme E.T, o garoto resolveu inventar uma máquina que pudesse se comunicar com os E.T's através de um feixe de laser. Marco Túlio acreditava que existiam E.T's bons e E.T's maus, assim como em Startreck. O aparelho seria capaz de identificar naves amigas e inimigas, e eliminar os maus invasores. Estava quase pronta, faltava somente a eletricidade. Ele tinha providenciado tudo: conseguiu um rolo de barbante das coisas de sua mãe, embebeu em uma mistura de sal, limão e água (ele ouviu que sal e limão na água ajudam a conduzir eletricidade) e esperou secar.
            Do pé de manga até a rede elétrica de sua casa era fácil arremessar. Esperaria até o final de tarde, porque sabia que a empregada - que sempre estraga tudo - poderia descobrir sua armadilha para E.T's e "varrer" sua máquina para o lixo. Além do mais, segundo Marco Túlio, quando uma arma de laser dispara um feixe, gasta muita energia, e pode causar blecautes. O impacto seria muito menor se acontecesse à noite. Por isso, esperou até o final da tarde, quando o sol já se punha, para lançar o barbante sobre os fios. Fez o fio de barbante correr por todo o quintal, em quatro ou cinco lugares diferentes, passando pelas árvores. Quando arremessou o barbante, viu que ele encostava apenas em um dos fios.
_ Desse jeito não vai ligar. Precisa encostar em dois. - e lançou novamente o rolo por sobre os fios. Satisfeito, julgando estar com a máquina em funcionamento, foi tomar banho e dormir, conforme os gritos de sua mãe determinavam.
             A madrugada foi curta naquela noite, exceto para Marco Túlio, que vez ou outra olhava pela janela, para garantir que estava tudo certo. Por volta das quatro da madrugada, quando ele dormia um sono pesado, toda a casa acordou com um estrondo no quintal. Seu pai, Gilberto, levantou com o celular em mãos, chamando o número da polícia. Sua mãe, buscava qualquer cabo de vassoura com que pudesse acertar o que quer que fosse lá no quintal. Faltava energia, e via-se o faiscar da fiação elétrica do lado de fora.
_ Meu E.T! Peguei! - exclamou o menino.
_ Marco Túlio! Vem pra cá! - gritou a mãe, louca de desespero.
_ É o meu E.T, mãe, Consegui pegar um.
_ Que E.T, menino? Essas coisas não existem.
_ Existem sim. Acabei de pegar.
Da janela, a mãe percebia alguma coisa se movimentando no quintal. Quando a criatura se voltou para eles, ela viu claramente um rosto com olhos enormes, boca muito pequena, e que andava de um jeito esquisito.
_ Meu Deus, Gilberto! É um E.T mesmo!
_ Deixa de ser boba, mulher. Claro que não é um E.T.
_ Então vai lá pra saber o que é.
_ Não vai precisar. A polícia está a caminho.
O ser estava mancando, como se sua perna estivesse quebrada. Grunhia o tempo todo. Ficou acuado embaixo da mangueira.
_ O que é aquela coisa ali? - perguntou Gilberto, apontando a lanterna para a engenhoca de Marco Túlio.
_ É a minha máquina de caçar E.T's. Ela disparou um raio laser no E.T e paralisou ele.
_ De onde você tira essas coisas? - perguntou Rafael.
_ De lugar nenhum... Eu mesmo crio.
A criatura gemia como um ser humano.
_ Calma que a gente já chamou a ambulância! Mexe não que é pra não machucar mais! - falou Francine. O E.T resmungou, como se estivesse insatisfeito com a algeação.
_ Fica quieto, seu "Coisa"!
_ Sua perna está quebrada. Dá pra ver daqui. Mexer vai ser pior pra você. - disse Gilberto. Isso convenceu a criatura.
           Dez minutos depois da confusão a polícia chegou. Os faróis deles focaram-se todos na criatura misteriosa aos pés da mangueira. Percebendo que era a polícia, a criatura começou a se agitar:
_ Não,senhor. Não precisa vir aqui não, Senhor.
_ Põe as mãos sobre a cabeça, E.T. - disse um deles, e foi prontamente atendido. Os policiais chegaram bem perto dele, o revistaram, tomando uma arma de brinquedo, e retiraram a máscara que o meliante usava sobre o rosto.
           Marco Túlio ficou frustrado com o que viu: quer dizer que não era um E.T de verdade?
_ Esse rapaz vem praticando vários furtos à residências durante a noite. - disse o policial aos seus pais - Ele é conhecido como E.T justamente por usar esta máscara aqui. Pelo que ele estava contando para os para-médicos, quando tentou saltar o muro da sua residência, ele tropeçou num fio de barbante que passava sobre o muro, e bateu com a perna em cima do invento do seu filho. Como o barbante passava pela fiação, a queda dele fez o barbante esticar e juntar os dios fios, e isso gerou o blecaute.
_ Foi você que fez uma máquina de caçar E.T's? - pergunto o outro policial ao garoto.
_ Fui eu.
_ Parabéns: ela funciona. Este E.T pelo menos não incomoda a mais ninguém.
           Foi frustrante para o garoto ver que a máquina fora destruída de maneira tão inusitada. Mas não tinha problema algum, porque na manhã seguinte ele usaria as cadeiras velhas que a mãe ajuntou no fundo do quintal e o balanço debaixo da mangueira para fazer uma outra engenhoca: um elevador para subir em árvores.

sábado, 8 de outubro de 2011

Icarus

Um general sem exército
Um funeral sem lamento
Uma canção sem sentimento
Pode se comparar
A viver sem conquistar

Em um homem há vários mundos
Com colinas e altiplanos
Tantos rios regando os campos,
Mais de vinte estações por ano,
Tantos povos e dialetos
E países a governar,
E estados a se formar,
Tantos frutos para colher,
Importar e exportar,
Tantos outros e tanto mais
Em tão breve e simples vida
Esperando pelas trilhas
Dos primeiros bandeirantes.
A que se pode comparar?
É inútil viver sem compartilhar.

Em um homem há mil estórias
Reais e imaginárias,
E sistemáticas, e arbitrárias,
E democráticas, e tiranas,
E românticas, e levianas,
Absolutamente insanas,
Absolutamente falíveis,
Bem ou mal escritas,
Cruzando tantas outras,
Plagiando milhares de contos,
Criando dezenas de vidas,
De inventos, de notícias.
Uma fonte de idéias tão raras,
Tão peculiares a se explorar
Com seus livros empoeirados a esperar
Um único leitor a quem possa interessar.
A que posso comparar?
É inútil um legado sem alguém para o herdar.

Um homem vive como um imortal,
E voa com asas de cera
Até que, com o beijo quente do sol
Suas asas se derretem no final.
A que se pode comparar?
É inútil voar sem alguém para quem retornar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Diário de uma Estabanada

LADO A – Toda a minha vida eu fui estabanada. Sério: tudo começa ou termina em um acidente. Até o meu nascimento foi um acidente. É a Lei de Murphy: se alguma coisa tem a possibilidade de dar errado, é certeza que vai dar errado. Todos os cantos de parede achavam minha unha encravada, assim como todos os vasos e objetos frágeis da minha casa tinham que cair quando eu estava passando, pra euzinha aqui levar a culpa. Acho que a sorte é minha inimiga de nascença. Impressionante como eu sou sempre a última pessoa a encontrar dinheiro no chão, por exemplo. Uma vez eu achei um celular, mas não consegui usar ele porque pedia o código PIN.
     Para terem uma idéia do quanto a sorte é minha inimiga, conheci no colegial uma pessoa que nunca mais me deixou em paz desde que o conheci. Eu estava atrasada para a prova de geografia, que ia ser aplicada na primeira aula, e um cartaz da aula de física que eu passei a madrugada fazendo. Quando dobrei à direita o bendito topou comigo. Ele era muito bonito, mas acho que por isso mesmo ele se achava.
_ Que droga, menino! Amassou o meu cartaz todo!
_ Te perdôo, totalmente. Eu também entendo que foi um acidente.
_ Convencido! – e minhas amigas, espiando da janela, riam compulsivamente – Se você olhasse por onde anda isso não teria acontecido!- e notei que seu nariz sangrava - Era o que me faltava: seu nariz tá sangrando...
_ Acho que foi o livro de física. Tudo bem, tá tranqüilo...
_ Me devolve ele ... E pára de sangrar, por favor, que eu sou fr... e resmunguei o resto, porque minhas vistas já estavam totalmente embaçadas, e não me lembro de mais nada. Disseram que eu falei uns nomes bem feios pra ele e desmaiei. O fato é que quando acordei estava na enfermaria e ficaria até um pouco mais tarde porque precisava fazer a prova de geografia na última aula (eu ia sair na penúltima, que ódio). Mas acordei a tempo de apresentar o trabalho de física.
_ Desculpa por ter topado com você daquele jeito – Falou ele.
_ Tudo bem. Da próxima vez você toma um pouco mais de cuidado.
Aquilo foi o suficiente para faze-lo ficar calado por um tempo.
_ É sério, foi sem querer.
_ Tudo bem, eu entendo. Desculpa por ter te xingado antes de desmaiar. É que eu sou fraca com sangue, a minha primeira reação é essa mesmo.
_ Tudo bem. Eu vi que você não estava normal.
Após uma pausa, ele emendou:
_ Assina o meu band-aid?
_Quê?
_ Assina o meu band-aid... Quando eu não precisar mais dele, eu vou guardar, pra lembrar do nosso primeiro encontro...
     O que ele queria dizer com “primeiro”? Será que ele acha mesmo que eu vou sair com ele? Nossa, como ele é convencido. Lindo também: olhos castanhos claro, cabelinho cacheado, forte, alto, barba por fazer porque ele também tinha acordado atrasado... Talvez se o tivesse encontrado em outra ocasião a gente poderia ter uma chance, mas fala sério; que tipo de romance começa com um esbarrão?
_ Não. Se quiser pode guardar o band-aid. Fica a seu critério, mas eu não preciso assinar nada.
_ Tudo bem...
     Desde então o garoto fica um grude em mim, mas quanto mais ele se aproxima, de mim, mais insuportável ele fica. E não entendo o porquê de ele ainda insistir, porque ele também não me suporta. A gente sempre discutia porque ele era muito certinho, e eu sou super desorganizada; minha amiga, que conhece ele um pouco mais me diz que ele fala de umas coisas que nunca na minha vida me interessaram; curte músicas totalmente diferentes das minhas; eu gosto de comida japonesa, e ele não. A Taciane vive me enchendo o saco, dizendo que eu gosto dele. Não sei de onde ela tirou uma idéia dessas. Ela me falou também que ele reluta com isso, mas que também está caidinho por mim, por isso vive me procurando pra brigar. Ela era a única que tinha essa teoria, porque todo o resto da escola via o quanto nós dois somos incompatíveis. Pra se ter uma idéia, quando ele se aproxima de mim, as palmas de minhas mãos começam a suar, meu coração acelera, me dá vontade de gritar com ele, bater, qualquer coisa pra manter ele longe de mim. Ele definitivamente não me serve. Pra dizer a verdade, nunca dei muita sorte no amor.
     No dia do meu vestibular, acordei caindo da cama, porque estendi a mão para desligar o despertador, mas ele estava muito longe. Peguei o ônibus errado, e assim que percebi, parei no ponto seguinte e voltei. Quando peguei o ônibus que achei que era o certo, descobri que o primeiro que eu tinha pegado ia parar onde eu queria chegar. Resultado: não fiz a prova. Minha mãe não ia me pagar um cursinho pré-vestibular, então me matriculei em um curso técnico, e passei a trabalhar no RH de uma distribuidora. O que sempre quis foi publicidade e propaganda, mas como boa estabanada que sou consegui estragar a chance da minha vida. Vivo para trabalhar, porque não tenho amigos com quem sair. As minhas amigas de colégio me encontram de vez em quando e perguntam o que eu faço da vida. Finjo que faço o que eu sempre quis na vida, para contar alguma vantagem, mas o fato é que a vida não privilegia pessoas estabanadas como eu. Estou fadada a viver sozinha e cheia de hematomas. É aquilo que falei: se uma coisa tem a possibilidade de dar errado, perca as esperanças, porque ela vai dar errado.

LADO B - Toda minha vida eu fui estabanada. Sério: tudo termina ou começa em um acidente. Quando criança eu vivia dolorida por causa do meu talento para quebrar, tropeçar, derrubar, trombar em coisas. Isso significa que eu deveria ser uma azarada de primeira, mas sabe de uma? Acho que a sorte é uma sujeita tão estabanada quanto eu, porque ela vive tropeçando em mim. Perdi as contas de quantas vezes eu dei de cara no chão exatamente onde tinha uma nota de dez reais, ou quase perdi a canela em um banco de praça com um celular de última linha (devolvi todos. Até me recompensaram com dez ou vinte reais).
     Como uma boa e eficiente estabanada, a danada da sorte topou comigo no primeiro ano do colegial. Pra variar, eu estava atrasada pra aula – a primeira era de geografia e tinha prova -, estava com uma pilha de livros, um cartaz da aula de física que a gente ia apresentar na segunda aula e que eu fiquei até de madrugada fazendo. Sem muito tempo pra me preocupar com o trajeto, fiz uma curva fechada à direita, e como tinha que ser, encontrei um obstáculo – lindo por sinal, olhos castanhos claro, cabelinho cacheado, forte, alto, barba por fazer porque ele também tinha acordado atrasado - que me lançou todos os livros no chão, amassou meu cartaz da aula de física e teve a deselegância de sangrar na minha frente (eu sou fraca com sangue).
_ Que droga, menino! Amassou o meu cartaz todo!
_ Tá desculpada. Eu também entendo que foi um acidente.
_ Convencido! – e minhas amigas, espiando da janela, riam compulsivamente – Se você olhasse por onde anda isso não teria acontecido! Meu Deus, seu nariz tá sangrando...
_ Acho que foi o livro de física. Tudo bem, tá tranqüilo...
_ Ai, moço, desculpa... Pára de sangrar, por favor, que eu sou fr... – resmunguei o resto, porque minhas vistas já estavam totalmente embaçadas, e não me lembro de mais nada. Disseram que eu falei uns nomes bem feios pro coitado e desmaiei. O fato é que quando acordei estava na enfermaria e ficaria até um pouco mais tarde porque precisava fazer a prova de geografia na última aula (eu ia sair na penúltima, que ódio). Mas acordei a tempo de apresentar o trabalho de física.
_ Desculpa por ter topado com você daquele jeito.- falou ele.
_ Não precisa se desculpar. Eu só falei aquilo porque eu estava com muita raiva. Passou... – e ele sorriu pra mim. Nem o band-aid colorido no nariz dele conseguia estragar aquele sorriso. Acho que era uma daquelas paixonites de adolescente, mas eu ri de volta, um pouco corada.
_ Assina seu nome no meu band-aid?
_ Não vai doer não?
_ Só se você assinar dentro do meu olho.
_ Engraçadinho...
_ Não, não quis dizer isso. É porque eu vou guardar o band-aid quando não precisar mais... Pra me lembrar do nosso encontro.
Encontro? Ele disse ENCONTRO? Novamente os sintomas daquela paixonite apareciam, agora em todo o meu rosto branquelo e na palma das minhas mãos.
_ Posso assinar no seu band-aid também?
_ Pode. – respondi, gaguejando e quase sem voz de tão desconcertada que ele me deixou. Doeu um pouquinho, mas e daí? Ele se aproximou bastante –pra mostrar que era cheiroso, só pode – e assinou. Depois, foi a minha vez. Já que estava mesmo rolando um clima, peguei de leve no queixo dele, como se fosse dar um beijo, e fiquei a mais ou menos meio palmo dele. Saiu um pouquinho torto porque ele ficava me olhando nos olhos.
_ Que foi? – falei por impulso.”Aff, menina tonta estabanada! ‘Que foi’? Ele quer te beijar, só isso tudo”...
_ Seu band-aid é da turma da mônica. – disse, rindo.
     Na semana seguinte o Maurício e eu estávamos saindo. Nem vou dizer que eu derramei refrigerante no meu vestido quando a gente foi na sanduicheria do lado da escola, o nosso primeiro encontro. Eu é que dei o primeiro beijo. Ele falava de assuntos que nunca me interessaram antes dele aparecer. Gostava de músicas bem diferentes das minhas, sempre tinha as respostas certas na hora certa. Parecia ser muito maduro para a idade dele. Com alguns meses de namoro, às vezes me irritava quando ele me corrigia, assim como eu irritava um pouquinho quando ele chegava pra gente ir ao cinema e eu ainda não estava pronta, ou quando mudava de idéia no meio do caminho e resolvia comer comida japonesa ao invés de sorvete. As coisas que são totalmente opostas na gente são as que eu admirava mais nele, e vice-versa. Eu falo demais, e ele fala somente o necessário; eu me visto com cores quentes, vibrantes, e ele tem dificuldade de curtir uma bermuda e havaianas na época do calor; fala como um erudito, e eu falo como uma cheerleader. Gosta de cinema, e eu gosto de clube; pensou primeiro em um apartamento, e eu não penso no que vem primeiro: eu compro primeiro e penso depois. Um caso bem “Eduardo e Mônica”.
     No dia do meu vestibular, acordei caindo da cama, porque estendi a mão para desligar o despertador, mas ele estava muito longe. O Maurício me ligou pra ter certeza que eu não chegaria atrasada. Até me ofereceu um táxi, mas eu sei me virar, e respondi que não precisava. Peguei o ônibus errado, mas descobri que era o certo porque duas garotas que eu conheci no ônibus estavam indo fazer a mesma prova. Eu esqueci de levar caneta esferográfica, mas a Júlia me emprestou uma extra que ela tinha. A Renata queria fazer a mesma coisa que eu: publicidade e propaganda. Foi assim que descobri minhas melhores amigas. Hoje trabalhamos juntas: a Júlia é a contadora da firma de publicidade que eu e a Renata montamos.
O Maurício hoje é advogado. Melhorei bastante depois que casamos. Por exemplo: não perco mais o celular como antes, e sempre sei onde estão minhas chaves - se eu me esquecer, o Maurício coloca em cima da penteadeira, no lugar que decidimos que seria do celular e das chaves. Estou mais organizada, mais cautelosa, aprendi a evitar alguns acidentes domésticos que eram bem clássicos com a minha pessoa. Enfim, acho que estou me reabilitando da vida de estabanada. Mês que vem a família vai aumentar. Torço para que ela não seja estabanada como a mãe, mas se isso acontecer, vou lembrá-la de que a dona sorte também dá suas trombadas de vez em quando.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Caixa de Mensagem

       Onze minutos de espera desta vez, e um caderno cheio de protocolos. Uma música instrumental se repetindo, vez ou outra interrompida por frases como: “Aguarde, pois sua ligação é muito importante para nós”. Regina tinha muitos motivos para desistir, mas desta vez havia muita coisa em jogo. Tentou várias táticas para que os atendentes não a desligassem, mas foi em vão. O melhor resultado que havia conseguido era aquele: passava pela décima quarta vez pelo atendimento eletrônico, e já tinha perdido as contas de quantas pessoas a ouviram, em todos os estados emocionais do seu vasto repertório. Seu marido tentou conseguir atendimento na ligação passada. Ele é mais paciente que ela, mas desta vez não conseguiu manter um nível de conversa coerente.
_ Silmara, boa tarde. Com quem eu falo? – ouviu Regina. Uma voz evidentemente estressada, mas ainda assim, parecia que alguma simpatia havia sobrevivido até aquele “boa tarde”.
_ Silvana?
_ Silmara.
_ Meu nome é Regina, Silmara. Regina! E você deve ser a centésima pessoa a me atender só nesta ligação. Sabe quantas horas eu estou tentando receber atendimento? Três horas e meia! Já até decorei a melodia da musiquinha irritante do atendimento eletrônico.
_ Em que posso te ajudar, Regina?
_ Não sei mais se você pode, Silmara, mas vou tentar outra vez.- ela já perdera a paciência, as esperanças, o juízo. Se não fosse tão importante já teria desistido e reclamado na Anatel. – O que eu quero é somente recuperar a senha da minha caixa de mensagem. Nada mais. Parece que ninguém aí sabe, porque todo mundo dá um jeito de se livrar de mim. O que foi que eu fiz pra vocês? Eu só quero que alguém me ajude.
_ Eu estou te ajudando agora, Regina. – disse Silmara, enfatizando o “eu”. - Nós vamos recuperar a senha da caixa de mensagem. Pode por gentileza me confirmar...
_ De novo? Já confirmei umas mil vezes os meus dados. Você tem tudo aí, por que eu ainda tenho que confirmar?
_ Por segurança do titular da linha, nós sempre confirmamos esses dados antes de efetuar qualquer registro.
         Confirmou os dados e emendou:
_ Agora por favor, não me transfere para lugar nenhum, moça.
_ De forma alguma. Eu sou a responsável por este atendimento. Aguarde só um momento enquanto faço algumas verificações, tudo bem?
_ Tudo. – e ela não ouviu nada do outro lado. As centenas de vozes e teclados da central de atendimento sumiram.
         Silmara estava naquele momento falando com o seu supervisor:
_ Olha pra isso! Só agora ela foi transferida treze vezes. Comigo quatorze.
_ Anote os ramais e me passe depois. Vou cuidar pra que cada um desses malas tenham o que merecem.
_ Alô! – gritou Regina, do outro lado.
_ Estou aqui, Regina.
_ Ufa! Achei que você tinha me desligado.
_ Não, pode confiar em mim. Eu digo e repito que este atendimento é responsabilidade minha agora. Não vamos encerrar a ligação enquanto não recuperarmos a senha da sua caixa de mensagem, tudo bem? – “Graças a Deus”, pensava Regina, “alguém que me entende”.
_ É porque eu não estava ouvindo nada, então achei que você tivesse me desligado.
_ Eu tive que colocar a ligação no mudo para reportar algumas informações do atendimento para o meu supervisor, mas não vou mais fazer isso. Qualquer dúvida, pode me chamar.
_ Tá.
         Silmara checou os procedimentos internos, e após alguns minutos retornou:
_ Regina, obrigada por aguardar. Eu tive que fazer o reset da senha de sua secretária virtual, que retornou para a senha inicial. Por gentileza, pode anotar o procedimento que eu vou te falar?
_ Espera um pouco. – e ela correu para pegar outra vez o caderno.
_ Pode falar.
_ A senha inicial é um, dois, três, quatro, mas o atendimento eletrônico não vai permitir que você acesse a caixa de mensagem antes de modificar para uma senha pessoal, que é mais segura. Para alterar a senha, você vai retirar o telefone do gancho, aguardar o tom de discar, e teclar oito, cinco, oito e quadrado.
_ Espera um pouco que eu estou anotando. Oito, cinco... oito?
_ Isso mesmo, e quadrado.
_ No meu telefone não tem quadrado não.
_ É o “jogo da velha”...
_ Ah, bom... E depois?
_ Depois ele vai te direcionar para a mudança da senha. Digite uma senha com quatro números e aguarde pela confirmação. A senha só não pode ser com números repetidos, ou postos em seqüência, como cinco, meia, sete, oito, por exemplo.
_ hum, uhum...número da senha... Ok, e depois?
_ Confirmada a senha, você automaticamente entra no menu inicial, e tecla a opção quatro. O menu vai te falar quantas mensagens você tem, e qual opção teclar para acessar cada uma delas. No final da mensagem, vai te dar a opção de salvar ou excluir.
_ Então agora você vai esperar aqui porque eu vou fazer a mudança da senha conforme você me orientou.
_ Mas a ligação não vai cair? Você não teria que encerrar esta ligação pra fazer a programação? Porque se você  tiver que desligar eu dou um espaço de cinco minutos e ligo de volta...
_ A gente tem dois telefones. Eu estou falando do que está no nome do meu marido, vou até o escritório fazer a programação e já volto.
_ Tudo bem.
_ Promete que você não sai daí?
_ Prometo.
         Silmara se sentia meio enganada pela cliente: fazia seis minutos que ela saiu para resgatar a sua senha, e ainda não tinha voltado. Agora não podia desligar, porque disse que esperaria. Na verdade, poderia simplesmente chamar três vezes por Regina, e caso ela não respondesse, encerrar a ligação sem problema algum. Onze minutos depois um homem toma o telefone, aos prantos:
_ Alô?
_ Sim, aqui é a Silmara. Com quem eu falo? –  respondeu por reflexo, assustada.
_ Aqui é o marido da Regina, o Valter.
_ Tudo bem, Valter? Eu estava com sua esposa na linha agora a pouco, e ela ficou de fazer a programação no telefone para recuperar a senha da caixa de mensagem. Ela conseguiu?
_ Conseguiu sim, minha filha. E eu quero muito te agradecer por isso. Seu supervisor está? Gostaria de falar com ele...
_ A respeito de quê?
_ Não precisa ficar com medo. Não é nada pra te atrapalhar.
_ É porque eu preciso dizer a ele o motivo.
_ Diz que eu quero falar com ele sobre você.
_ Tudo bem. Aguarde um momento que eu vou chamar.
         O supervisor ficou sem entender o porquê. Foi um atendimento tão perfeito. O que pode ter saído errado? Pegou o headset, pôs no ouvido e se apresentou:
_ Sim, eu sou o gestor dela desde que chegou na central. Sim, sim, é verdade. Não... ela nunca atendeu com esse tipo de comportamento, é uma característica dela... Não... – e fez uma pausa e tanto. – Entendo. Lamento por sua perda.
_ A mulher dele morreu? – perguntou Silmara, se remoendo de curiosidade. O supervisor apenas acenou com a mão dizendo que não e que ela ficasse em silêncio. Olhava para ela, cada vez mais surpreso com o que ouvia, até que começou a querer chorar.
_ Sim, ela está aqui do meu lado. Quer falar com ela? Sim, só um momento. – e passou o headset para ela.
_ Pode falar, Valter. Estou te ouvindo.
_ Eu precisava agradecer de forma especial pelo seu trabalho, minha filha, porque você não faz idéia do quanto você foi importante para nós.
_ Obrigada. - disse, ainda sem entender.
_ Não sei o que faria sem você. Sabe por quê? Meu filho faleceu recentemente, e a gente não teve a oportunidade de vê-lo novamente desde que foi estudar em São Paulo.
_ Sinto muito, Valter.
_ Quando saiu de casa estava brigado com a mãe, que não queria que ele saísse antes de se casar. No dia seguinte ela já estava arrependida, mas não tinha mais contato com ele. Isso já tem dois anos e meio. Na semana em que ele vinha para cá, tinha deixado um recado para avisar que chegaria em breve. No recado ele disse: “Mãe, espero que me perdoe pelo que fiz. Sinto muito sua falta, e não quero ficar brigado com você. No começo fiquei com raiva, mas não dá pra ter raiva justo de você, que sempre me quis bem. Te amo”. No dia seguinte, ele sofreu um acidente de carro. Minha mulher não se perdoava por ele ter morrido brigado com ela, e começou a adoecer.Isso tem quase uma semana, e ela não chorava por ele, não entendi bem o porquê: ela se sentia culpada, e queria o perdão dele. Está no quarto chorando tudo o que guardou até agora, e por isso eu é que peguei o telefone. E ainda bem que você nos ajudou com a mensagem, porque ela não conseguiria viver carregando essa dor por muito tempo.
_ Realmente sinto muito, Valter.
_ Você não precisa sentir. Parabéns por sua competência, e por ter ouvido nosso pedido.
_ Obrigada. – ela falou tentando segurar as lágrimas. – Mas como vocês ficaram sabendo da mensagem?
_ A noiva, que ele queria apresentar pra gente hoje, nos avisou da mensagem. Enfim, muito obrigado, viu?
         Ela encerrou o atendimento, engasgando as palavras da fraseologia final. Precisou de algum tempo para se recompor. Não tinha percebido como seu trabalho pode influenciar a vida de alguém, e a sua própria. Imaginou uma história inteira: se o jovem foi feliz com aquela noiva, como foi quando a sua mãe o tentou encontrar, se no lugar dela teria ido até o fim com o atendimento, como seria ver um filho morrer antes dos pais. Pensou se teria tempo o suficiente pra falar tudo o que ela quer e precisa falar, se as pessoas que ela ama estarão em casa quando ela chegar, se ela viverá o suficiente para ter filhos. Esperou sua pausa chegar, pegou seu celular no armário, ainda com olhos marejados, e discou um número:
_ Pai, me perdoa... – falou quando ouviu a voz do outro lado. – Eu sei... eu sei... o senhor estava certo... Nada não, pai. Só estou arrependida... nada não, sério... É que... eu percebi que esse tempo todo sem conversar com o senhor ... Foi uma bobagem, eu não precisava ter feito isso... Quero. Eu saio daqui e passo aí pra gente conversar... Também, pai. Beijo.
         Ela o culpava pela separação deles. Acha que ele desgastou o casamento com sua mãe, o que a afastou dele, e por isso merecia certas hostilidades, como na semana passada em que fugiu de casa para ir à uma festa. Quando ele foi buscá-la, foi humilhado em público. Ela falou coisas sobre o casamento dele que ninguém mais precisava saber. Agora lamentava sua imaturidade.
Por mais cruel que seja a morte é a única coisa que nos faz relembrar o que realmente é importante, e rever nossas prioridades. Mais interessante ainda é como fatos como esses acontecem exatamente quando precisamos repensar atitudes que podem nos levar a um caminho sem volta. Silmara agradecia por ter tido a oportunidade de voltar atrás naquele momento. É certo que o que aconteceu não pode ser mudado, mas de agora em diante ela decidia-se por não perder oportunidades de aproveitar a presença das pessoas que ela mais amava. Afinal, como dizia seu cantor preferido, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, e nunca até aquele episódio, essa frase – essa música inteira – fizera tanto sentido para ela. Foi exatamente esse o dia em que ela se livrou da sua velha maquininha de rotular culpados e inocentes. O último rótulo ela pensou em pregar na própria testa, mas descobriu que não tinha mais espaço. Tudo bem, porque aquele era um novo começo.